FACADA EM CAMPINAS: O JOIO E O TRIGO


O que fazer quando se chega a uma época na qual o interesse por música está intimamente ligado à “conectividade”, ao número de acessos que um tal site lhe possa proporcionar, ao recorrente discurso do “expandir públicos” que mascara concessões covardes que visam propósitos que não os artísticos – o que fazer? O underground, antes a trincheira da resistência dos que não se interessavam por política e sim por arte, agora busca peneirar quem está ali por conta destes facilitadores de oba-oba modernos e quem ali está exclusivamente pela música – pois um show que marque a volta do Facada, peso-pesado do grindcore brasileiro/mundial, à região Sudeste torna-se ainda mais atrativo se reúne bandas com um ideário não-parasitário, um modo de encarar a própria carreira sem muletas e sim baseadas no próprio talento, profunda compreensão de gêneros musicais e bom gosto criativo. Por tais características terem tornado-se tão raras, nossa presença por lá era obrigatória.

Para abrir os trabalhos do rolê, o quarteto death metal Black Coffins. Grupo esse que surgiu com objetivo específico: o resgate de uma sonoridade que poderíamos definir simplesmente como “som sueco”, porém com um alcance um tanto quanto maior – a idéia de fazer algo que contenha um espírito puro, que mergulhe em um real grotesco musical não contaminado pelo horror moderno, distante dessa esterilidade adolescente que chamam “brutal” na música dos anos 2010. Aí então abre-se espaço para abrigar, em prol dessa exata proposta, o d-beat escandinavo, o som da Flórida no início dos anos 90, black metal, Impaled Nazarene… Ao vivo, os quatro ainda demonstram que ali também estão para sangrar com cada acorde.

Logo na seqüência, entra em cena o DER. Uma banda que existe para musicar a brutalidade, para fazer canções que concentrem o caos e o absurdo, porém que o façam expandi-lo de forma quase física em seus concertos, nos quais quatro pessoas promovem o descontrole de um mundo inteiro, assistem a tudo desmoronar e ainda estão prontos para mais destruição. Prestes a completar 15 anos de existência, o quarteto atinge o ponto mais coeso de sua trajetória (cada canção é um bloco incrivelmente massivo), e faz da experiência uma bomba de estilhaços, para alcançar ao vivo níveis de intensidade catárticos dos quais ninguém pode passar incólume. Acredito que, na música mundial, não possa existir concorrência para o DER quando o assunto é pura e maciça violência grindcore – se você conhecer alguma outra formação que no mínimo os possa fazer frente, me avise.

A terceira banda foi uma dupla – o Test, que conta com o batera Barata (que há pouco se apresentara com o DER) e o guitarrista/vocalista João, ex-Are You God?. Não demora muito para que nos instalemos nas quebradeiras freestyle dos dois – uma proposta minimalista sim, até mesmo como presença (afinal, são duas pessoas apenas no palco), mas que preenche com sobras um show, como ali visto: a imprevisibilidade é a tônica, o bom humor também, as quebradas de tempo são ao mesmo tempo improváveis para o gênero o qual abraçaram e indispensáveis à proposta do grupo, e o paroxismo atinge o ápice ao perceber que trata-se de uma proposta extrema, porém tranqüilamente deglutível. E isso, meu caro, é só para quem realmente tem as manhas.

Para encerrar os trabalhos da noite, Facada, que não visitava São Paulo desde 2006 – e a visível empolgação do trio cearense em ali estar ajudou a tornar seu set ainda mais esmagador. Uma noite de rendição aos mais malditos estilos do rock pesado, fechada por um de seus melhores nomes, não poderia ter outro resultado: o clima instaurado entre banda e público apagou qualquer distinção que poderia existir entre os dois, todos ali eram seres movidos por ódios e amores trocando energias, distantes de bobocas chantagens retóricas como “lutar em prol da cena” (tópico este também salientado por James em seu discurso), todos em marcha para o apocalipse. Agora que o conjunto não responde mais por apenas um disco (como naquele show que assisti em 2006), e sim por uma carreira, de dois álbuns e um terceiro já a caminho, vemos, também ao vivo, que o pesadelo niilista de vomitar em tudo e em todos representado por “Indigesto” transmutou-se na criação de uma parede sonora de indiferença e impassibilidade com “O Joio” – o que nos deixa bastante curiosos para conferir a sonoridade que o próximo disco apresentará. O encerramento, com “Tattoo Maniac” do RDP, foi totalmente desencontrado, devido à fúria do trio ali encontrar-se com a exaustão de um show esmigalhante, porém altamente simbólico e apropriado ao evento.

Fotos por: Sinistro Studios

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