ENTREVISTA COM A BANDA BA BOOM

Crédito: Natália Garcia

No último domingo vocês tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais da banda BA BOOM na coluna O QUE ESTA ROLANDO NO MEU IPOD (veja aqui).

Atendendo a pedido deste editor, o musico Buia Kalunga do BA BOOM nos concedeu entrevista falando da história da banda, a batalha para ser reconhecido e os projetos para o futuro.

Confira a entrevista na íntegra.

Monophono: Primeiramente gostaria de agradecer o BA BOOM por ter aceitado o convite do Monophono e nos dar a oportunidade de nossos leitores conhecerem um pouco mais da história e projetos dessa banda aqui do ABC Paulista.

Buia Kalunga: Agradecemos também o convite.

Monophono: Como nasceu o projeto BA BOOM?

Buia Kalunga: A idéia inicial de montar uma banda foi do Cauê, ex-tecladista, junto com seu irmão, o atual baixista Raoni, e o primo, nosso atual batera, Ks. Como a maioria das bandas punk daquela época (final de 90, começo de 2000), a idéia era fazer um som, curtir, expressar as idéias. Aprenderam a tocar a partir daí, com o bom e velho punk rock. Nessa época eu já conhecia os caras, sempre nos trombávamos nos rolês, fomos fazendo amizade. Até que um dia o guitarrista deles, o Átila, saiu, e me chamaram pra entrar, fazendo guitarra e voz. Eu topei, achei que tinha a ver com o que eu queria fazer (nessa época, 2002, já tocavam ska-punk). Aos poucos fomos aprimorando o som, buscando originalidade. A música jamaicana foi ganhando espaço, fomos firmando mais essa idéia. Eu gostava muito (ainda gosto) de música brasileira, principalmente da onda do mangue beat, e levei isso pra banda. Começamos a experimentar algumas coisas nesse sentido e, num dado momento, chamamos uma galera pra fazer junto: teclados, sopros, percussão. Coisas novas pra gente, não sabíamos como lidar com tudo aquilo direito, mas metemos a cara. Era tosco, mas foi nessa época que começamos a aprofundar essa história de Brasil-Jamaica. Chegamos a ter 11 integrantes. Depois reduzimos, Cauê foi pro teclado, eu pra percussa, Ivan no sax/escaleta, Allan na guitarra, Raoni no baixo e Ks na batera. Com essa formação, gravamos um EP em 2009, um pouco mais maduro, mas ainda amador. Apesar de não ser um material de primeira, esse EP foi importante pra firmar nossa identidade, e a partir daí fomos lapidando mais o som, agregando pessoas, melhorando os arranjos. Saíram Cauê e Ivan, chegaram Bira e Guaru na percussa, Kiko, Bio e Fão nos sopros, Feijão recentemente chegou no teclado, e aqui estamos. Ba-boom!

Monophono: Nesses mais de 10 anos de estrada, a partir de que momento o BA BOOM deixou de ser uma simples banda de garagem para se tornar o que é hoje?

Buia Kalunga: Não sei se houve esse ponto de virada, sinto que as coisas vêm acontecendo gradativamente. Talvez porque eu esteja dentro, não consiga visualizar, mas a nossa caminhada continua a mesma, continuamos ensaiando no mesmo lugar, as mesmas tretas com vizinhos, isso não mudou (risos). Mas sem dúvida nosso comprometimento é maior hoje, organização, seriedade, envolvimento. Somos o que fazemos, e se estamos aqui hoje é porque estamos nos movimentando pra isso.

Confira o video comemorativo dos 10 anos do BA BOOM.

Monophono: Sabemos que o BA BOOM começou como uma banda de Ska e hoje conseguiu criar um som bastante próprio flertando com outros ritmos, desde o samba até o jazz. Como acontece essa mistura no processo de composição das musicas e versões?

Buia Kalaunga: Isso aí começou com muita ousadia, botamos na panela tudo o que achávamos legal pra ver no que dava (risos). Com o tempo, fomos tirando o que sobrava, e criando uma identidade mais firme. Hoje temos a música jamaicana como nosso alicerce, e a partir daí brincamos com outros elementos, principalmente brasileiros.

Monophono: Conheço alguns músicos do BA BOOM há muitos anos, desde uma época em que tocávamos juntos em festivais escolares e em rodas de amigos. Hoje o que notamos ao ouvir BA BOOM é musica de primeira qualidade e com técnica apurada de quem sabe o que esta fazendo. Como aconteceu essa evolução técnica?

Buia Kalunga: Ainda está acontecendo, e espero que continue sempre, temos muito que aprender. Pra muitos da banda, a música começou como brincadeira mesmo, e foi tomando outras proporções à medida que o interesse pela coisa foi crescendo, uns mais, outros menos. Nos propusemos a fazer um tipo de música que exige um mínimo de conhecimento e técnica, e perceber isso já tem sido um grande avanço. Cada um tem um envolvimento com o lance, temos diferentes níveis técnicos na banda, mas estamos exigindo cada vez mais de nós mesmos.

Monophono: BA BOOM começou em uma época em que o único meio de divulgação de shows que tínhamos era o “boca a boca” e a panfletagem. Gravávamos demos em fita cassete que chegavam à outros Estados através do correio! Hoje as bandas independentes têm a disposição diversos formatos de mídia para divulgação de seu trabalho, sobretudo na internet. Como é ser uma banda independente no Brasil hoje?

Buia Kalunga: É, velhos tempos (risos). Hoje, nessa “era digital”, muita coisa facilitou pras bandas, isso é muito bom. É mais fácil gravar, divulgar, fazer contatos. A internet é um “lugar” em que a lei, o policiamento e o controle estatal ainda não chegou com o peso que tem no mundo “real”, então ainda temos muito espaço pra ocupar, por nós mesmos, pra nós. Mas ainda é difícil ser independente. Como o volume de informação hoje é maior, as bandas também têm que entrar nessa se quiserem espaço. Gerar conteúdo o tempo todo, ter canais de comunicação (site, redes sociais), assessoria de imprensa, produção, uma pá de coisa. Antigamente precisávamos de menos… hoje, facilitou o acesso às ferramentas, mas o nosso trabalho aumentou, e continuamos fazendo todo o corre sozinhos.

Monophono: O que falta ainda no Brasil em termos de incentivo à cultura e à trabalhos como o do BA BOOM?

Buia Kalunga:Falta reconhecimento das instituições e das casas. Tem muito dono de casa ganhando dinheiro fácil por aí, chamando as bandas pra tocar por uma mixaria, com estrutura tosca. E mais, querem que a banda faça todo o corre da divulgação, de trazer o público pra casa. Isso era assim há 10 anos, e lamentavelmente pouca coisa mudou. Acho que falta a consciência, tanto dos músicos como dos donos das casas, de que somos trabalhadores, que tocar não é oba-oba. A balada é pra quem vai ver a gente tocar, nós estamos lá trabalhando, e merecemos boas condições pra trabalhar, pra oferecer um som firmeza pras pessoas. É osso, porque muitas vezes precisamos de grana e acabamos nos submetendo, mas temos que dobrar os caras na idéia, na postura. Agora, falando de poder público, também tá embaçado (risos). O critério de investimento ainda é o da visibilidade. Então, temos eventos muito bons, gigantescos, como a Virada Cultural por exemplo, onde são investidos milhões, e bomba de gente, repercussão tremenda na mídia. Mas, e depois, o que é que sobra? Só o osso… falta continuidade desse tipo de ação. Entre outras coisas, precisaria de mais umas duas páginas pra discorrer sobre…

Monphono: Neste cenário, como nasceu a Jangada Cultural e qual foi o seu papel neste momento que o BA BOOM esta vivendo?

Buia Kalunga: De uns tempos pra cá, temos contado com a ajuda de um produtor e amigo nosso de longa data, o Alan Silva. Esse cara tem sido fundamental pro Ba-boom, somos muito agradecidos a ele. A Jangada é uma iniciativa dele, juntamente com o Fão (trombone) e Raoni (baixo). É uma produtora cultural, usada pros trampos pessoais de cada um, e também pro Ba-boom. Achamos que era importante ter um apoio jurídico pra essa caminhada, e que isso não fosse feito por terceiros. Gostamos da idéia de ser independentes. Pra muitos esquemas que estamos fazendo aí pra tocar, precisamos lidar com certas burocracias, e a Jangada vem cumprindo esse papel. Além de outros, como a produção do clipe, design, etc.

Monophono: O vídeo clipe de “Amizade Prevalece” foi gravado em vários pontos do ABC Paulista que fazem parte da história de vocês. Gostaria que você nos contasse como foi o processo de criação do vídeo.

Buia Kalunga: Foi trabalhoso, nunca tínhamos feito isso antes. Contamos com ajuda de parceiros, principalmente do André (Iso 25), sem palavras pra força que ele deu, somos imensamente agradecidos. A letra da música é bem cotidiana, sincera, real. Por falar de amizade e do ABC, sentimos que essa música tinha um grande potencial, que uma galera se identificaria com ela. Então partimos desse princípio, mostrar a rapazeada, o rolê, lugares que freqüentamos, lugares típicos do ABC. Tudo ali é muito familiar pra nós, e muitas coisas são simbólicas pra quem conhece a região, como o trem, trólebus, a petroquímica. ABC é figura carimbada quando falamos da indústria, da história do movimento operário no Brasil, mas, cultural e artisticamente, é uma região que ainda está formando sua identidade. E temos um potencial enorme, rola muita coisa boa por aqui. Talvez esse clipe, essa música, seja uma pequena contribuição do Ba-boom nesse sentido, de mostrar uma outra cara do ABC pro mundo.

Confira o video clipe de AMIZADE PREVALECE.

Monophono: E como surgiu a oportunidade de entrar na programação da MTV?

Buia Kalunga: Batemos lá na porta deles e mostramos o material. Com muita insistência e apoio da galera que nos acompanha, rolou.

Monophono: Sabemos que o BA BOOM é uma banda que sempre esteve envolvida em projetos sociais no ABC, sempre demonstrando uma preocupação em dar voz às minorias. Como o BA BOOM vê a musica como instrumento de transformação da sociedade?

Buia Kalunga: Não vemos a música como instrumento de transformação social, não exatamente. A música pode acompanhar as transformações, instigá-las, dar voz a algumas questões, mas não é ela que vai transformar, de fato. Uma pessoa que ouve nosso som pode de repente despertar pra algumas coisas, isso é um poder que a música tem, mas, daí pra frente, é outra fita. O que transforma a sociedade é a ação organizada, a construção, o enfrentamento, historicamente tem sido assim. Nosso lance é a música, essa é a nossa missão, somos uma banda. Alguns de nós participam da movimentação política/cultural do ABC, e o Ba-boom acaba naturalmente se envolvendo, mas não somos um grupo político, até porque dentro da banda temos diferentes formações, opiniões. Falamos do cotidiano, da rua, da vida, por isso falamos de questões sociais… é o que estamos vendo, vivendo.

Monophono: Para finalizar. O BA BOOM esta em estúdio produzindo o novo trabalho da banda. O que os fãs da banda podem esperar do próximo CD?

Buia Kalunga: Ah, esse aí ta vindo quente. Tem boas composições, e o trabalho do Sofiatti ta sendo muito bem feito em cima delas. O clima das gravações ta bacana, muito tesão em cada dia de estúdio, satisfação demais. Muito aprendizado também, dedicação, tudo sendo feito com atenção, carinho… enfim, um momento especial, sem dúvida. O resultado nem nós sabemos ainda, porque o processo é lento mesmo… mas o barato ta ficando loko!

Confira CANÇÃO GUERREIRA, musica que também esta recem lançado Single do BA BOOM.

Monophono: Mais uma vez agradeço a entrevista concedida ao blog e o Monophono sempre estará a disposição do BA BOOM para divulgação de novos trabalhos e shows.

Buia Kalunga: Valeu Dudu, satisfação em saber que parceiros das antigas estão antenados aí na cena. Parabéns pelo trabalho de vocês, iniciativas como essa são fundamentais pra dar voz ao que vem rolando aqui no ABC, e em outras quebradas. Temos que fazer por nós mesmos, sempre foi assim, e continua sendo. Vamo que vamo!

Você pode conferir mais do trabalho dos caras na fanpage do facebook, perfil do twitter e canal no youtube.

Fotos por Natália Garcia (banda),  Raoni Gruber (Buia) e Monica MC (banda preto e branco).

  1. 12 de novembro de 2011

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