ENTREVISTA COM O MÚSICO E ESCRITOR CARLOS LOPES – PARTE 2

Entrevista com o músico e escritor Carlos Lopes – Parte 2. Para conferir a primeira parte desta entrevista, clique aqui.

5.Monophono: Como você tem visto coletivamente esse ano de 2011, tanto do ponto espiritual quando do ponto artístico (que tenho considerado crítico por sua quase que total anemia)?

Lopes: Fui jornalista musical por mais de uma década; mas, há algum tempo, percebi que essa não era mais a minha. Sempre amei ler e, nos últimos anos, minha paixão pela cultura e literatura daqui do Brasil cresceu exponencialmente ao meu desejo de passar uma borracha em praticamente tudo o que eu havia feito antes, como jornalista e artista, em duas décadas. Minhas mudanças, ou “despertares” pessoais, vêm ocorrendo desde 1985 mais claramente, e se desenrolado em ciclos de mais ou menos 10 anos (às vezes um pouco mais ou menos, mas sempre nessa lógica matemática). Já morri e renasci em vida algumas vezes, mas, entre 2010 e 2011 algo muito poderoso ocorreu: uma força motriz inconsciente que me transformou demais, um renascimento unido a um grande desapego. Uma coisa ficou clara durante esse processo de autoconhecimento: eu deveria continuar contribuindo com minhas músicas e escritos. Tive várias intuições do que deveria fazer; às vezes fui guiado a essas respostas, e em outras simplesmente observei o mundo à minha volta e intuí o que deveria fazer. Pessoas foram “postas” em meu caminho e eu no delas (escolhas nossas, escolhas deles, escolhas de “alguém”). Em 6 meses, desenvolvi ideias, projetos e os vi sendo materializados, como se tivesse encontrado (ou reeencontrado) uma direção que me satisfizesse. Além do livro sobre as sincronicidades, um projeto que tenho muito carinho, que será lançado em novembro de 2011, é o História Cantada, uma série de livros, shows, CDs e DVDs que ensina a história do Brasil através de textos satíricos e composições com ritmos diversos como samba, frevo, baião, repente, rock e etc. A História Cantada debate as formas de governo (Império, República Velha, Ditadura, Democracia), fala sobre a construção da cidadania (relação governo-população) e reflete sobre as nossas várias crises sociais e institucionais. O primeiro lançamento será um livro com um CD encartado chamado “A Revolução dos Cães Contra o Imperador Soneca”, que conta (ou recanta, em canções) a guerra do Paraguai, a libertação dos escravos, a queda do Império e os dois primeiros governos da República – ambos militares.

6. Monophono: Aproveitando a deixa, nos diga a quantas anda seus projetos musicais no momento – pelo visto, o História Cantada parece ser a prioridade de agora, não?

Lopes: Acabei de gravar 20 composições para o CD desse projeto, o História Cantada. Compus a maior parte dos temas durante 2010, antes mesmo de saber que seriam utilizados nesse CD. Escolhi as composições que tinham mais a ver e mudei as letras. Durante o período no qual preferi observar a agir, não ouvi música alguma e compus naturalmente, sem pressa ou pressão. O resultado não é inusitado: é um prosseguimento e maturação do caminho musical que escolhi há uma década. Ou seja, durante os últimos dez anos, vivi em meu próprio laboratório, acertando, errando e aprendendo muito. Caí, me ergui, caí, me ergui. Ouvi críticas e elogios, mas a decisão final foi minha, uma decisão baseada em um objetivo, desenhado lá atrás.

7.Monophono: Qual a sua vivência com o rock hoje em dia? É uma relação conflituosa, ou pode-se dizer que inexistem traumas nesse seu processo com o estilo?

Lopes: Sua pergunta é engraçada… Não tenho trauma algum em relação ao rock, ele só me está esgotado, já deu. Me diga: por que se chupa uma laranja chupada? Na verdade, o rock me deu a estrutura para começar, ou pelo menos me forneceu as ferramentas básicas para entrar na sociedade. Você precisa de um código, uma máscara social, um passe, para entrar no clube dos encarnados, e escolhi o rock. Rebeldia, sabe? Mas paralelamente, fenômenos inexplicáveis ocorriam, tantos que eu não dava a devida atenção. E com o tempo, os fenômenos começaram a puxar meu pé na cama, para que eu decidisse o que era mais importante. O que quero dizer é que cada “ferramenta” deve ser usada enquanto ela é útil e isso não tem nada a ver com oportunismo, mas sim com compreensão e entendimento de que tudo tem começo, meio e fim. Com o tempo, percebi claramente que a revolta que me fez entrar no rock era mais uma desculpa para minha inadequação social. Descobri com a convivência que, em todos os estilos, há sexólatras, ególatras, alcóolatras e adictos, inclusive no mundo do samba, por exemplo. O estilo de música não te faz pior ou melhor (e é claro que, se você opta em ser um skinhead neonazista, aí o rock apenas serviu de desculpa). Convenhamos que aquilo que o rock significou para a geração dos anos 50 até, digamos, os 80, não tem nada a ver com o rock de hoje, um estilo, um novo sanduíche com nome em inglês, um clipe exibido em canais com nomes em inglês, que promovem a cultura estrangeira, que se infiltra como peçonha nos corações e mentes. O rock, que foi o grande catalisador das mudanças, já não existe mais – para além das paixões, esse é um fato histórico. E o público de rock é essencialmente branco e há muito preconceito: lembro bem das pessoas que me viravam a cara quando eu falava que o Led Zeppelin e o Grand Funk Railroad tinham influência de funk e soul, uma coisa tão óbvia! Se existe samba-rock, para que excluir as possibilidades? O rock me cansou um pouco, mas o que ele me ensinou é eterno: o manancial de sensações que se expandem através dos tocadores de pífanos de Caruaru, um terreiro de umbanda, um baião e um ensaio de escola de samba. No meu livro, “O Segredo J”, reproduzo as palavras de Mick Jagger a Raul Seixas, ditas no Brasil em 1968, quando ele viu que o baiano só queria saber de “rock”: “Man, você deveria tocar candomblé, esse é o barato. Cante macumba, isso faz sentido, tem a mesma essência do rock e essa é a música de vocês”. Faço minhas, as palavras do jovem, e sabido, Mick Jagger, que saiu daqui com “Sympathy for the Devil” na cabeça. Menos mal.

8.Monophono: Quais são as suas maiores preocupações hoje, enquanto ser humano e artista? Elas se diferenciam?

Lopes: Contribuir como pensador e artista com a educação do meu país, e contribuir com a educação espiritual. Não há mais separações ou subdivisões em mim: todas as entidades estão em um corpo só, o objetivo é o mesmo, não há crises ou falta de foco – há uma completude profissional e pessoal, que se basta. As conseqüências e os resultados nascem dessas escolhas, que são livres e conscientes.

Conheça mais sobre o trabalho de Carlos Lopes nos links abaixo:

http://www.oficinadelivros.com.br/default.aspx?pagegrid=pages&pagecode=86
www.sincronicidademagica.wordpress.com
http://historiacantada.wordpress.com/
http://www.omartelo.com/
http://www.portalcarloslopes.com.br/

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