ENTREVISTA COM O MÚSICO E ESCRITOR CARLOS LOPES – PARTE 1


Ao ouvir o nome de Carlos Lopes, sua associação imediata será certamente o Dorsal Atlântica – trio seminal e de vulto indiscutível na história do metal brasileiro (e da música nacional como um todo, porquê não?) o qual fundou no início dos anos 80 e sempre se manteve como a força criativa. Mas, quando este passou a não mais satisfazer a ampla inquietude artística do guitarrista/vocalista, fez-se a vez de explorar outras frentes, tanto na música (com projetos como o Mustang e o Usina Le Blond) quanto na escrita, através do jornalismo (o site O Martelo, o qual edita) e da literatura (primeiramente com a biografia do Dorsal, depois com “O Segredo J”). E é sobre este último tema, em especial, mas também sobre outros assuntos (dos quais ele nunca se furta a falar), a entrevista que fizemos com Lopes: seu novo livro, “Mágica Vida Mágica”, acaba de sair, e versa sobre o algo mais inerente aos acontecimentos da vida que encaramos como simples “coincidências”. Com a palavra, o autor.

1.Monophono: Conte-nos um pouco sobre o livro “Mágica Vida Mágica”.

Lopes: Quando não se gosta mais do que se faz, é preciso rever as prioridades. Após uma série de crises pessoais e profissionais, dei um tempo para mim mesmo, sem fazer shows por mais de um ano. Parei, sentei e observei o mundo do lado de fora. Ao fazer isso, confiei plenamente nas intuições e sincronicidades que educadamente, e às vezes me dando empurrões, me guiaram à uma compreensão maior. Para o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, a sincronicidade é uma “coincidência significativa”, que te “dá” respostas para todas as questões, que te mostra qual é o caminho a seguir ou o que mais tem a ver com sua encarnação e objetivos. Após várias “coincidências”, tive um encontro inesperado com o parapsicólogo Waldo Vieira, em Foz de Iguaçu, no ano de 2009, que me aconselhou a escrever um livro. A questão não era o livro em si, mas que fosse algo diferente, como um depoimento, cujo conteúdo refletisse a mudança que ocorria comigo. Intuí que deveria escrever sobre todas as coincidências fascinantes que me amparam em todos os momentos, símbolos dessa nova vida. O livro explica como utilizo as sincronicidades para me dar sustentação psicológica e amorosa, como elas me trazem uma sensação completa de harmonia, de aceitação dos altos e baixos, e de como funcionam as conexões externas e internas, os processos de crescimento pessoal e coletivo. Por isso, o título do livro conta com a palavra “mágica” – pois a vida de todos pode ser mágica, basta saber ver e ouvir.

2.Monophono: Em “Lord Jim”, o escritor Joseph Conrad descreve o fim como “o exorcismo que escorraça da casa da vida a sombra errante do destino”. Sincronicidade é uma ideia correlata a destino? Ou é algo contrário, pois não-determinado?

Lopes: A resposta mais natural seria dizer que sincronicidade é a mesma coisa que destino, que trata-se de um fato concreto; mas aí eu descartaria o imponderável, um fato “desconcreto”, e a injustiça seria ainda maior. Prefiro comprar Deus, o destino ou as sincronicidades à mecânica quântica. O destino estaria mais ligado à mecânica clássica e o imponderável à quântica, pela qual é impossível se atribuir ao mesmo tempo uma posição e um momentum exatos a uma partícula. O movimento de partículas em mecânica quântica é descrito não como trajetória (o destino), mas por meio de uma função de onda, que é uma função da posição da partícula e do tempo, uma probabilidade de encontrar a partícula em determinada posição e em determinado tempo, segundo Max Born. Porém, minha experiência pessoal (que não exclui outras possibilidades) mostra que todas as minhas escolhas “certas” ou “erradas” obedeceram a um planejamento inconsciente prévio que incluía fatos históricos, kármicos, e milhares de outras pessoas espalhadas pelo mundo.

3.Monophono: Como funcionam os lançamentos dos livros? Você mesmo corre atrás de tudo, ou uma editora te dá uma força?

Lopes: Em 2011, a editora carioca Oficina de Livros, especializada em lançar edições sob demanda, me fez uma proposta de lançar dois dos meus últimos trabalhos: o livro de sincronicidades e o meu novo projeto, esse de cunho educacional, o História Cantada, no qual reconto a história do Brasil através de livros e canções. Como o convite da editora veio agregado a várias sincronicidades ocorridas paralelamente, me senti confortável o suficiente para aceitá-lo, pois pessoalmente gosto de todos na editora e sei que posso contribuir com minha arte e vida para que todos possamos crescer juntos.

4.Monophono: Você encara sua obra como uma constante autobiografia? Qual seria a fronteira entre a ficcionalização e captação do real, se é que existe uma?

Lopes: Na verdade, sim. Minha obra musical e literária é um processo continuado de análise, terapia, de autointerpretação. Ninguém é obrigado a concordar com tudo ou discordar de tudo; cada um é um universo e eu não imponho a minha verdade, pois não há uma verdade, há miríades de possibilidades. Através do meu coração, agrego aqueles que tenham, ou acreditem ter, um caminho semelhante ao meu. Tenho o direito e o dever de descrever o que ocorre comigo, e nesse momento da “transcrição”, a realidade se torna arte. O resto são interpretações. Sobre essa fronteira entre o real e a ficção, cada autor possui a sua técnica de mesclar os dois universos, mas no meu caso, em “Mágica Vida Mágica” não há qualquer ficcionalização: tudo o que descrevo ocorreu exatamente como ali está. Na verdade, eu poupei os leitores dos detalhes mais sórdidos e preferi dar início à descrição dos fatos mágicos em minha vida, através de um livro de 120 páginas. Não dizem que a realidade pode ser mais fantástica do que a fantasia? No meu caso, é.

 Continua…


  1. 18 de setembro de 2011

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