RESENHA DO ÁLBUM “O JOIO” DA BANDA FACADA


O grindcore sofreu uma severa transfiguração ao longo do tempo. Desde a pedra fundamental que é “Scum”, do Napalm Death, passando pelos primeiros álbuns/splits do Agathocles, que ajudaram a estabelecer suas diretrizes capitais, por trabalhos alucinados de conjuntos mais voltados ao noisecore, como Sore Throath e Brigada do Ódio, até o Nasum, grupo que definiu as bases de uma nova sonoridade dentro do estilo, muito mudou na abordagem dedicada a esse gênero animalesco da música pesada. Algumas bandas, inclusive, depois que a afinação baixa das cordas tornou-se praxe, aboliram o uso do contrabaixo; o que gerou uma revolução não somente musical, mas no formato tido como usual para uma banda de rock – mas isso já é outra história. Bem, tudo isso para dizer que o trio/quarteto Facada, do Nordeste do Brasil, reflete em sua obra toda essa evolução. Surgido em meio a uma geração de absurda qualidade do grindcore nacional, tornaram-se rapidamente um nome a se respeitar graças a seu poderoso debut, “Indigesto”, de 2006, um mix entre a pegada old school e a abordagem mais moderna do grind; e que agora, com este “O Joio”, lançado em 2010, nos chega ainda mais violento graças a uma ligeira mudança em sua orientação sonora.

É facilmente perceptível a influência de bandas da Relapse (Cretin, Pig Destroyer, Agoraphobic Nosebleed) e da inconfundível “forma” sueca contemporânea (AFGrund, Gadget, e, claro, o Nasum), além de generosos inserts de death metal escandinavo; mas isso tudo surgido a partir da própria sonoridade que o Facada moldou no debut e incorporado nesta; nunca como um dado externo, gratuito. Ou seja: a personalidade do conjunto mantém-se intacta, mas agora surge retrabalhada, em vias de renovar-se para desbravar novas frentes – e o resultado final torna o som do grupo, já originariamente desgraçado, em algo ainda mais hermético e hostil. O caos surge a partir da intensidade da música, mas não dentro dela – o instrumental de “O Joio”, ao mesmo tempo sintético e explosivo, é concentrado de tal forma que cada batida assemelha-se a um tiro, cada urro torna-se a voz da consciência em meio a um inevitável apocalipse.

 Um cubo claustrofóbico parece se erguer entre o disco e seu ouvinte, o que só confirma o estrago que o grupo é capaz de fazer nessa suprema arte de açoitar sensibilidades que é o grindcore (graças, também, ao providencial niilismo anti-humanista presente nas letras e a proposital opacidade da apresentação visual, que formam um todo estético de puro desprezo). Enfim, são 14 faixas em certeiros vinte minutos que colocam o Facada  na ponta-de-lança do grindcore não só brasileiro, mas do planeta; sintonizado e em pé de igualdade com o que de melhor o estilo produz no mundo – e, cá entre nós: uma banda que opta por fazer um cover de canção do Filthy Christians (“Satanist”), é porque demonstra que não está nem um pouco de brincadeira.

Clique aqui para conferir em stream as músicas do Facada.
 
Entrevista com Facada
Não percam na próxima semana uma entrevista exclusiva com a banda Facada aqui no Monophono.
    • Fred Catarino
    • 17 de maio de 2012

    Muito boa percepção deste magnifico trabalho do Facada! Tudo muito bem observado, desde o som às idéias e a parte visual! Parabéns pela resenha!

    • Obrigado por acompanhar o Monophono. Créditos ao nosso colaborador Alexandre Bury, responsável por essa ótima resenha.

  1. 30 de agosto de 2011

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